Teching Hisieh- A radicalidade permeia o tempo

Tehching Hsieh propôs programas de performance radicais que tiveram duração de um ano. A relação promove a simultaneidade entre arte e vida, ou ainda a sua indiferenciação. Na primeira, Performance de um ano, ele inicia seu trabalho em 30 de setembro de 1978, fica em regime de confinamento extremo, onde permanece dentro de uma cela construída no interior de seu estúdio, permitindo algumas vezes da semana a visitação do público. Em um estatuto assinado pelo artista, ele define o que deve e não deve fazer. Nas proibições autoinfligidas constam: não poder ler, escrever, escutar música, conversar ou assistir televisão. Ele deve receber comida e roupas limpas de um amigo contratado para que não morra de inanição. Todo o processo é documentado por via de fotos. Ele sai em 29 de setembro de 1979.

One year performance-1978-1979

One year performance-1978-1979

Em sua segunda performance, de 1980 a 1981, Hsieh se veste com uniforme operário, raspa a cabeça e bate o cartão de ponto em uma máquina regularmente de 1 em 1 hora. Justifica caso haja algum atraso. As fotografias evidenciam a passagem do tempo no crescimento do seu cabelo e desgaste físico.

One year performacne-1980 a 1981

One year performacne-1980 a 1981

Na terceira Performance de um ano ele deveria estar apenas em lugares abertos, ao ar livre, sem poder estar dentro de nenhum ambiente coberto. Ele não poderia estar em um avião, navio, caverna, subterrâneo ou tenda. Poderia ter somente um saco de dormir. A performance foi realizada de 26 de setembro de 1981 a 26 de setembro de 1982.

One yar performance-1981 a 1982

One yar performance-1981 a 1982

Na quarta performance, Hsieh e Linda Montano permanecem amarrados pela cintura com uma corda, sendo que deveriam ficar juntos sem poder desatar o nó. Quando um está dentro de um lugar, o outro deve permanecer dentro também. Completa ausência de privacidade. A duração foi de 4 de julho de 1983 a 4 de julho de 1984.

One year performance-1983 a 1984

One year performance-1983 a 1984

Na quinta performance ele não pôde falar, ver ou escrever sobre arte, tampouco ir em alguma galeria ou museu por um ano. De julho de 1985 a julho de 1986.

One year performance -1985 a 1986

One year performance -1985 a 1986

A última performance de Hsieh se dá com um programa de 13 anos, na qual, em seu aniversário de 36 anos, ele afirma que produzirá arte durante todo esse tempo e não poderá publicizá-la de nenhuma forma. Ele pôde divulgar seus trabalhos somente depois de seu aniversário de 49 anos. Esse programa foi realizado de 1986 a 1999.

Teching Hsieh- 1986 a 1999

Teching Hsieh- 1986 a 1999

Insistir no gesto é revelar a obsessão que permeia nosso modo de vida absurdo. O corpo, no caso de Hsieh, mergulha nas constrições promovidas por questões inevitáveis: regime de trabalho sacrificante, cárcere social na ideia de segurança de um lugar “dentro” e cárcere na privação que o “fora” sugere. O fardo de estar obrigado a viver amarrado à outra pessoa lembra a instituição do casamento, ou a obrigação do convívio em outros aspectos. Produzir arte. Não produzir arte. Tudo isto delimitado por contrato na burocracia cotidiana. O tempo não se diferencia da vida. O tempo faz arte.

Referências

Site oficial de Tehchin Hsieh:

http://www.one-year-performance.com/

notícia sobre a apresentação de artistas que compuseram a 30° bienal de SP:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1146324-veja-a-lista-completa-dos-artistas-que-se-apresentam-na-bienal.shtml

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Francis Alÿs- Quando a fé move montanhas

Em algumas de suas performances Francis Alÿs utiliza o caminhar/deambular pela cidade como elemento poético de seus trabalhos. O tempo adquire outra qualidade de expressão, e ocupa um lugar de “inutilidade” dentro da lógica social que relaciona tempo com ganho de  dinheiro. A potência política da inutilidade é evidenciada quando o artista articula elementos simbólicos que se relacionam com o imaginário social do lugar onde ele executa os trabalhos, mas faz esta inserção com elementos que se deslocam de seu uso corrente, cotidiano. Um exemplo do uso de tempo para uma ação aparentemente absurda é na   proposição da performance Cuando la fe mueve montañas [Quando a fé move montanhas], de 2002, realizada em Lima, Peru.  Nesta ação Alÿs  convocou quinhentas pessoas para mover em dez centímetros uma duna de areia. As pessoas cavaram e cavaram em sincronia debaixo de sol quente até mover a duna de lugar. Como fica a comunidade depois de passar por uma experiência coletiva como esta? O que esta ação pode revelar? Organização política depende de afeto e desejo para que possamos mover as coisas, primeiramente dentro de nós, até que este dentro se transborde e a gente possa nos nossos  passos, dar passos que movam também o mundo. “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”.

Referências

comentários críticos sobre o trabalho de Alys:

http://bienalmercosul.siteprofissional.com/artista/230

Site oficial do artista com vídeos de suas performances:

http://www.francisalys.com/