O que é performance?

A performance se apresenta de forma escorregadia, duvidosa, divergente, e estas são qualidades inerentes da própria linguagem artística que reluta em ser domesticada por conceitos que venham estratificá-la. Uma das dificuldades é falar de uma linguagem de arte que ainda não foi codificada. Fica mais fácil dizer o que ela não é do que afirmar com veemência o que ela é. Pode-se dizer: performance é o uso do corpo em arte como lugar e meio de expressão. Então, caímos na exigência de diferenciá-la do teatro, da dança, do happening[1], e da body-art[2]. Depois dessa diferenciação ainda é necessário dizer que ela pode ser uma linguagem híbrida que mescla todas estas referências, e que os limites são tênues, névoa turvando a possibilidade de visão de uma imagem limpa, apreensível. Experimento soprar a névoa, as dúvidas consistem e são necessárias. Percebo nos passos em falso o abismo que a névoa oculta.  Arte do corpo: salto em queda livre.

Alguns aspectos frequentes podem ser percebidos na performance como o uso do corpo como lugar expressivo e materialidade a ser experimentada, no entanto, uma das questões é que na performance a apresentação desconstrói a representação  e confunde os limites entre arte e vida.  A apresentação é feita pelo corpo do/da performer que o utiliza sem os subterfúgios da representação de papéis fictícios ou dos mecanismos narrativos. O mergulho em características próprias como etnia, gênero, identidade e especificidades físicas expõe o corpo, coloca-o em jogo com todos os riscos subsequentes. Seu corpo é sujeito e meio da expressão estética, a manifestação da arte em si mesmo, como processo.

salto no vazio-1960

Yves Klein. Salto no vazio.  1960


[1] Happening é um termo cunhado por Allan Kaprow em 1957 para designar a sua produção de arte feita com o corpo, onde qualquer elemento cotidiano, desde gestos, objetos banais e outras ações eram considerados materiais poéticos para arte. Uma tradução aproximada deste termo pode ser “acontecimento”.

[2]  A body-arte , arte do corpo, é relacionada a práticas de modificação corporal  que podem ter um viés ritualístico que agregam questões estéticas, culturais e testam o limite do corpo. Incisão, perfuração, suspensão, cortes, escarificação são alguns exemplos desta prática.

Características da performance

Eleonora Fabião[1] coloca algumas características identificadas na performance:

Me restrinjo a destacar algumas tendências gerais: o desmonte de mecânicas clássicas do espetáculo, a desconstrução da representação, o desinteresse pela ficção, a investigação dos limites entre arte e não-arte, a investigação das capacidades psicofísicas do performer, a criação de dramaturgias pessoais e/ou auto-biográficas, a ênfase nas políticas de identidade e em discussões políticas em geral através do corpo e as experimentações em torno das qualidades de presença do espectador. (FABIÃO, entrevista para o Diário do Nordeste, 09.07.2009) Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=652907.

O corpo em performance pode criar formas de partilha sua experiêncial, evidenciar potências políticas partindo de coisas simples e presentes no espaço cotidiano. Esta zona de aderência entre íntimo e político, vida e estética, arte e não-arte caracteriza algumas das proposições  que constituem esta linguagem.

Os distúrbios, desde os mais delicados aos mais incisivos, são causados por formas de deslocamentos de signos presentes em seu uso habitual. Por exemplo, ações comuns como vestir-se, comer e dormir podem causar estranhamento se forem evidenciadas de forma pública e realocadas para fora do universo doméstico.

A performance se configura como  prática desviante. O desvio pressupõe a transgressão de normas, usos culturais recorrentes, significados atribuídos historicamente e práticas gestuais que conformam hábitos. Este desvio transita pelo universo simbólico e desorganiza os meios discursivos, lança dúvidas e questionamentos que podem vir a reorganiza-lo.


[1]  Citação retirada da entrevista cedida por Eleonora Fabião ao caderno 3 Diário do nordeste em 09.07.2009

Marina Abramovic e UlaY. Rest Energy. 1980. duração da performance : 4min.

Nesta ação Marina extrapola os limites da representação se colocando em risco de vida.

Contexto histórico da performance

A configuração da performance como linguagem artística se dá por volta da década de 70. Antes desta década haviam ações performáticas sem que isto tenha sido estruturado formalmente como linguagem artística.  No início do séc.XX os futuristas e dadaístas já faziam ações que se configuravam como performance. Posteriormente surrealistas realizavam deambulações e descreviam suas ações tidas por alguns teóricos como performance. No Brasil em 1931 Flávio de Carvalho realiza a Experiência n◦2. Ele caminha em contra-fluxo a uma procissão de Corpus Christi com um chapéu na cabeça, o que se configura como gesto de desrespeito, deixando a multidão furiosa que parte para a violência na tentativa de linchamento. Ele foge e se salva em uma delegacia de polícia. Infelizmente não há registros fotográficos desta Experiência.

A pintura feita na década de 1950 por Jackson Pollock, chamada de action-painting (pintura de ação) é considerada performance. Pollock estende a tela no chão, entra nesse espaço de pintura e pinta com sua ação corporal: ele parece fazer uma espécie de dança quando joga a tinta na tela. Há nesta ação alguns elementos relevantes, como o fato do pintor deixar o suporte da tela horizontal e entrar nele diretamente, outra questão é que ele distancia o pincel da tela quando joga a tinta, isso dá uma qualidade expressiva que quebra com os limites da representação das imagens. O processo da pintura é revelado quando Pollock pinta ao vivo ou expõe um vídeo na galeria junto com as telas, tornando o processo tão importante quanto à pintura produzida.

Estas ações são performances que dialogam com o espaço e o tempo em que são executadas, apontam para o vivido, para a pertinência absurda de estar no mundo tornando o corpo uma zona de aderência em constante contato, atrito e contaminação com as coisas presentes.

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